sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O FUTEBOL DOS CAMPINHOS E A FORMAÇÃO DO CIDADÃO Ainda lembro bem das cidades de Itararé/SP e Sengés/PR na minha infância, tempo em que ainda tínhamos vários terrenos baldios e ali fazíamos nossos campinhos pra jogar futebol. Mais do que o futebol propriamente dito, isso significava trabalho em equipe, força de vontade pra poder praticar o esporte que amávamos. De fato, em Itararé tínhamos o campinho da CESP, e em Sengés, pra onde vim em 1984, fizemos (sim fizemos) vários campos para poder jogar, sendo que a cada nova moradia construída mudávamos nossos campos, como verdadeiros despejados pela construção civil. Sengés era muito pouco habitada da rodoviária pra cima, ou seja, na região do atual Bairro Morungava, sendo fácil encontra-se terrenos vazios, convidativos para a construção dos famosos “campinhos”. Inicialmente era no próprio terreno onde hoje se encontra a rodoviária, depois subimos o morro em busca de espaço, terra plana e esperança de ali se alojar por bastante tempo, o que acabava não acontecendo. Hoje a juventude tem várias quadras de futsal, bons tênis, bolas de marca, linhas perfeitamente demarcadas, traves de ferro, mas lhes falta o sabor de fazer acontecer, de lutar por aquilo que se deseja. Atualmente as quadras são planas, lisas, grandes e higiênicas, isso mesmo, sem terra, barro, poeira, mas são frias e sem a empolgação de outrora. Pra que pudéssemos jogar futebol, inicialmente tínhamos que roçar o sapé dos terrenos, capinar, limpar etc. Depois fazer verdadeiros buracos na terra na base do enxadão pra marcar o campo, e finalmente, as traves, que para serem feitas tínhamos que cortar árvores com a ponta em forma de Y pra fixar o travessão. Era um verdadeiro mutirão, e depois era só jogar com as bolas de capotão n.º 4, com os pés descalços ou às vezes com o super kichute, que exalava um chulé insuportável. Se tivesse um cupim no terreno, certamente funcionaria como beque, porque jogaríamos com ele ali mesmo, como sempre ocorria no extinto campo da Turma IV. O dedão do pé volta e meia voltava sem a tampa, e raramente não tínhamos algum arranhão, corte ou hematoma pelo corpo, mas a felicidade de praticar o futebol nos campinhos era fantástica. Nada mais prazeroso que comemorar os gols gritando o nome dos ídolos, e olha que os jogos eram pegados, da cintura pra baixo valia de tudo. Sem internet e celular o chamamento era na base do grito, sendo que o pessoal ia passando e gritando da rua, um som que somente os atletas conheciam. E lá ia surgindo a molecada de todos os lados, dando pra formar vários times, escolhidos a dedo. Eu nunca fui dos primeiros a serem escolhidos, mas também não tinha o desprazer de ficar pro final, algo humilhante. Vendo como tratam nossas crianças hoje em dia, sinceramente não sei como aqueles moleques sobreviveram à “humilhação” e ao “bullying” terríveis a que eram submetidos. Era desagradável ser a sobra, mas isso somente motivada os perebas a provar que podiam ser úteis ao time, e nunca vi ninguém ser submetido a terapia por isso. Me solidarizo aqui com os moleques de hoje em dia, que não sabem o que é jogar futebol na chuva e no barro, que nunca se sentiram orgulhosos por construírem o próprio campo, ou que nunca precisaram reencaixar o travessão nas balizas em Y a cada bomba chutada que o derrubava. Tenho boas lembranças de minha infância, onde a rua era dominada pela criançada, sem os problemas de hoje em dia, sem drogas, sem violência. Só precisava voltar pra casa ao escurecer quando minha mãe gritava do portão, assim como as demais mães. Nosso tempo não era o tempo trazido pela Revolução Industrial, do relógio, dos ponteiros, das horas, dos minutos, mas era o tempo natural, onde uma vez almoçado estávamos livres pra sair e ao escurecer deveríamos voltar pra jantar, tomar banho e eventualmente fazer os deveres de casa. Eu, particularmente, tinha nos sábados que passar escovão na casa, pra depois poder sair jogar futebol, e isso era chato pra caramba, mas sei que isso também forjou dentro de mim o senso de colaboração e responsabilidade. Agradeço a minha mãe pela rigidez de minha educação, mas ao mesmo tempo pela liberdade que me proporcionou, pois na simplicidade extrema de minha infância, tenho certeza de que trouxe boas lições para a vida adulta. Trabalho em equipe, contato com a terra, com a natureza, sentimento de liberdade com responsabilidade, valorização do pouco que se tem, aprendizagem de cair e levantar rapidamente. São lições que a minha infância me trouxe e que carrego comigo até hoje, e que a prática do futebol, pela forma como o jogávamos, potencializaram a formação do meu caráter.

Nenhum comentário: